Como deixei a cracolândia e entrei na faculdade de Direito

Tiago Ideal Nogueira, 35 anos, durante quatro anos viveu na cracolândia, na região central de São Paulo. Ele canta na forma de rap, a sua história, de sobrevivência a quatro anos na cracolândia, na região central de São Paulo.

  “Acharam que eu estava derrotado,

quem achou estava errado,

eu voltei, tô aqui,

se liga só,

escuta aí.” 

O ex-“noia”, como os usuários de crack costumam ser chamados na cidade, atualmente é um missionário, ajudando dependentes a deixarem a droga.

Tiago produziu o seu primeiro CD de rap e, em 2016, foi o melhor aluno do curso na faculdade de Direito privada que frequenta na zona leste de São Paulo.

Nogueira recorda o momento que decidiu dar um novo rumo a sua vida: “Entrei pela porta da Cristolândia (ONG que auxilia usuários do crack a deixarem a droga) no dia 8 de maio de 2012, às 15h30, após quatro anos vivendo no fluxo”. (BBC/Brasil)

Tiago Nogueira cantando rap. Foto: Reprodução

Após dois anos de tratamento nas fazendas da ONG e um ano como missionário, ouvindo, ajudando no banho, servindo comida e convencendo usuários a aceitarem o tratamento, ele quer trabalhar no setor público, mas com foco justamente em viciados. “Meu sonho é ser defensor público”, afirma.

Tiago Nogueira é bolsista na faculdade graças, tem notas altas em quase todas as disciplinas. “A matéria que mais gosto de estudar é Direito Civil, e tirei nove notas 10. Estou no segundo ano e luto para manter esse ritmo”. Declara.

A coordenadora do curso, Eliana Berta Fernandes Corral, diz que Tiago é destaque em meio aos 600 alunos de seu corpo discente. “As notas dele são realmente acima da média, e ele sempre participa das aulas e das nossas atividades. Temos orgulho dele na faculdade”.

Uma história de superação

Tiago Ideal Nogueira. Foto: Reprodução

Tiago nasceu na zona norte de São Paulo. Ele perdeu a mãe aos 12 anos e o irmão mais velho aos 15, ambos tinham HIV. Sua avó morreu de câncer quando ele tinha 20 anos.

Ele conta que vivia com o tio e que nunca lhe faltou nada em termos materiais. “Eu morava bem, trabalhava com meu tio e andava com carrão, bem vestido e perfumado”, lembra.

No entanto, o que mais faltava era diálogo. “Não tive pai, nunca soube quem ele era, e sentia falta de uma orientação, de alguém com quem conversar. Meu tio me dava tudo, menos isso”, relata.

As drogas passaram a fazer parte na vida de Tiago, na adolescência. “Comecei a usar cocaína na balada, (junto com) bebida. Para um adolescente, estava tudo legal”, relembra.

“Ele (o crack) seguia sempre comigo. Eu trabalhava e ia para as baladas com ele junto, até o momento em que ele pede exclusividade. E, em 2009, eu fui morar nas ruas por causa disso.”

As drogas levaram Tiago a se envolver com a pichação, o que envolvia escalar prédios altos. “subi e pichei diversos prédios famosos de São Paulo”, narra.

Em 2010, caiu e quebrou vários ossos quando grafitava um edifício da avenida Brigadeiro Luís Antonio, na região central da cidade. Quase morreu. Apesar disso, não abandonou o gosto pela atividade. Hoje faz grafites pedindo autorização dos donos dos muros.

O Sonho que mudou a sua vida

Tiago Nogueira sendo abraçado. Foto: Reprodução

“Um dia sonhei que tomava um refrigerante com a minha vó e conversei muito com ela. Acredito que ela me mandou uma mensagem. Na época, andava de muleta. Acordei, me olhei no espelho e percebi que tinha me tornado um farrapo humano. Estava muito magro, ‘noia’ e de muleta, tinha passado quatro dias fumando crack direto”, revela.

Nesse momento decidiu buscar ajuda na Cristolândia. Ele relata que o período mais difícil foram os primeiros seis meses. “O corpo pede a droga e você tem que lutar para se manter na abstinência. Tinha muito desejo de fumar, muita fome, e dormir era complicado”.

Apesar da tentação não teve nenhuma recaída.

Tiago tornou-se um cristão evangélico dentro da Cristolândia. “No começo foi difícil. Eles falavam que Deus é bom, eu só pensava que havia perdido toda minha família, e isso era Deus sendo bom? Eu ficava revoltado”, salienta.

Depois de 15 dias de tratamento, ele menciona que teve uma experiência ímpar: “um encontro com Deus”. E dali em diante, a sua vida já não era mais a mesma.

Foto: Reprodução

Tiago se considera um missionário. E o rap surgiu dentro das atividades de música durante o tratamento, e hoje ele o utiliza para transmitir apoio aos usuários de crack. Nogueira compõe e canta em igrejas e nos cultos da ONG e gravou um CD que se chama Divinamente Rap.

Nogueira pretende desenvolver, com ajuda de um amigo, um aplicativo para agilizar a busca de vagas para tratamento de dependentes químicos, organização da internação e sistemas de logística da ONG que o resgatou.

Ao comentar sobre a operação policial realizada pelo governo na cracolândia, ele argumenta: “Sabemos que há interesse imobiliário em revitalizar a área, mas é preciso cuidar das pessoas. Só agir com autoritarismo não resolve. Assim, a cracolândia nunca vai deixar de existir”.

Tiago confessa que foi abordado “a vida inteira” por policiais e sempre era tratado como “negão e bandido”.

Em uma viagem recente à praia, foi parado por um policial, e falou imediatamente: “Olha o constrangimento que o senhor está me fazendo eu passar. Eu sou missionário, eu dou banho em noia, eu faço aquilo que o senhor não faz”.

Ao falar sobre a vida na cracolândia, rememora: “cada dia era uma guerra”.

“Você levanta de manhã, começa a batalha. Onde você vai comer, e como vai conseguir dinheiro. É impossível não entrar no esquema, você é obrigado a aprender as táticas, sempre ter um cigarro ou uma cachaça na mão para vender”.

Estatísticas

Tiago Nogueira é um sobrevivente, segundo pesquisa da Unifesp, 30% dos usuários de crack morrem antes de cinco anos de consumo da droga.

Ele acredita que sobreviveu para contar a sua história devido ao medo “de levar facada”, que o fazia evitar dormir na rua, e pagava por uma cama nos albergues baratos da região.

Nogueira destaca que hoje a sua maior luta é contra si mesmo.

“Nunca posso achar que estou bem, sempre estou em progresso. Ajudar as pessoas me faz bem, porque todos os dias me deparo com a realidade que vivi”. Conclui.

Com informações: BBC Brasil / Terra 

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