Teatro da Solidão Solidária: método de mediação de conflitos e inclusão social através da arte

Por Ivan Antônio

Observei, vivenciei, indaguei. Busquei respostas para tantas perguntas. Tudo começou com as minhas observações sobre os destroços e reconstruções de vidas humanas, que durante mais duas décadas e meia especialmente em São Paulo – onde criei o método, pude conviver, trocar saberes, ensinar e sobre tudo aprender a cada dia com pessoas valiosas tidas como “invisíveis” 

Agradeço imensamente a diretora do Conexão Boas Notícias, Josy Gomes Murta por essa oportunidade de escrever sobre nossa jornada pelo Brasil com pessoas em situação de rua, ex-presidiários, povos originários e imigrantes e refugiados na América Latina, Estados Unidos e Europa.

Imerso nas profundezas da solidão humana, me encontrei por diversas vezes com a jornada de dor e sofrimento de crianças, homens e mulheres em situação de rua no Brasil, além de imigrantes e refugiados da América Latina, Europa e Estados Unidos. Juntos a estes seres, tão desprovidos de
condições dignas de existência, nestes lugares tão distantes do direito pleno aos direitos humanos – busquei respostas para as minhas incontáveis perguntas. As vezes, confuso, eu me perguntava, se a solidão que buscava nos meus pesquisados já não estava, na verdade, impregnada em mim
mesmo…

O caminho a seguir

Em situações de puro isolamento, indagava a mim mesmo se quem estava naquele lugar era o artista ou, também, um ser humano em plena desilusão? Ao fim de cada imersão, eu perguntava para mim mesmo – sobre o que poderia fazer com o material da minha pesquisa. Como colocar, além do fazer social, da compaixão pelo sofrimento do outro, os sentimentos que me foram revelados durante o tempo de convivência com os vulneráveis sociais, que moravam em situação de rua, e os que, como imigrantes, sequer tinham direito a uma Pátria para chamar de sua.

Trabalhar aquilo que estas pessoas traziam no mais profundo de sua alma, e que se revelava em sentimentos de dor, desesperança, fome, violência e medo, parecia ser o caminho a seguir…

Construção diária: artista, método, pesquisa

O Teatro da Solidão Solidária se tornou, ao longo do tempo, um lugar de acolhimento. Centenas de pessoas de todos os segmentos sociais, não apenas os artistas, se encontram para buscar soluções coletivas. Em minhas palestras sempre lembro que um dos caminhos para a humanidade é sempre lembrar: “Eu sou nós”. E isso é vivenciado na prática, nas ações solidárias desenvolvidas por alunos, professores, colaboradores e instituições que se associam ao TSS, para, coletivamente,
desenvolverem projetos em comum.

Teatro da Solidão Solidária: ponte para a solidariedade humana

As oficinas do Teatro da Solidão Solidária são ministradas para estudantes, professores, terapeutas, artistas, empresários, policiais, ex presidiários, povos da floresta e pessoas em situação de vulnerabilidade social. Acontecem nas salas do Sesc, nas escolas particulares e públicas, empresas, quarteis da polícia militar, presídios e aldeias indígenas.

Inicialmente, as aulas são ministradas para cada segmento social individual e, em seguida, para
todos os segmentos juntos, no mesmo espaço, numa ação que com muito amor próprio nomeio: grande celebração humana.

Após uma sequência de oficinas, os alunos são convidados para a montagem de um espetáculo, onde podem se expressar nas mais diversas formas e segmentos da arte (teatro, dança, música, cinema, capoeira e circo). Durante o processo da montagem, os alunos são convidados a desenvolverem ações solidárias com pessoas, em estado de vulnerabilidade social, dentro
e fora do grupo.

Estas ações do grupo não se norteiam em programas assistencialistas. As ações têm o objetivo
de tornar o sujeito responsável pelas suas próprias ações, no sentido de que possa se tornar mais um agente de transformação dentro do Teatro da Solidão Solidária.

Teatro da Solidão Solidária: método artístico

O Teatro da Solidão Solidária é originalmente um método teatral/artístico, no qual como diretor utilizo, além do teatro, diversas outras linguagens da arte (dança, cinema, literatura, circo e música). A ideia é que o indivíduo/ator/artista possa desenvolver, com potencialidade, o seu ofício artístico, mas que também pessoas sem nenhuma experiência com o teatro encontrem espaço para melhor expressar suas emoções, colaborando para a elevação da sua autoestima.

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A solidariedade entre os povos se constitui como o principal instrumento e norteador das ações desenvolvidas pelos alunos e professores para se cumprir o papel maior do método.

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Em 25 anos de pesquisa, me concentrei, busquei, mergulhei – um mergulho profundo na alma humana, sobretudo com as pessoas em rotina de solidão extrema, independente do seu segmento social, tanto no Brasil como em países colonizadores ou países de extrema pobreza e situações de conflitos. Minha proposta tem sido, ao longo de todos estes anos, criar uma metodologia em que o corpo e a voz humana pudessem manifestar, sem julgamento, as suas expressões de dores, alegrias, traumas e esperança.

Para os atores/artistas o método do TSS, ao ser vivenciado, se torna material para composição de personagens e desenvolvimento do fazer teatral e entendimento profundo de que um dos papéis da arte é ser ponte. Para os não artistas, a voz e o corpo, que se manifestam durante os exercícios, buscam iluminar o caminho para as suas inquietudes, medos e angústias.

Nas oficinas os exercícios provocam muito além da reflexão sobre o papel do ser humano como civilização. A partir das aulas, é percebível, a cada um individualmente e também coletivamente, o papel da arte e do artista no nosso planeta, na nossa casa Terra.

As vezes, confuso, eu me perguntava, se a solidão que buscava nos meus pesquisados já não estava, na verdade, impregnada em mim mesmo. Foto: Arquivo Pessoal | Reprodução | Conexão Boas Notícias
Imagem destacada. Teatro da Solidão Solidária: método de mediação de conflitos e inclusão social através da arte. Foto: Arquivo Pessoal | Reprodução | Conexão Boas Notícias


Ivan Antonio

Dramaturgo, cineasta, poeta, cantor e compositor. Criador do Teatro da Solidão Solidária (TSS). Natural de Arcoverde (PE). Graduado em Cinema e Vídeo pela FTC (Faculdade de cinema e vídeo) Salvador – Bahia. Pós-graduado em Literatura Brasileira, com extensão em Literatura Universal, e em Neuropsicopedagogia, pela Faculdade Metropolitana de Ribeirão Preto – São Paulo. Mestrando em Negócios Internacionais pela Must University (Flórida – EUA).

Representou o Brasil no Estados Unidos no Brazil week (Nova York – EUA). Igualmente foi o representante brasileiro em diversos outros eventos internacionais, como o Festival Mundial de cultura da paz (Lyon – França), Festival Aos olhos do mundo (Roma – Itália), Festival Internacional de arte e cultura (Guimarães – Portugal), Festival internacional de teatro – Fazer a festa (Porto – Portugal) e BrazilNoar (Nova arte brasileira, Barcelona – Espanha).

Livros publicados, todos, no gênero Poesia: “Eu, Sonhador”, “Flores em Pé de Guerra”, “O Último Barco do Cais”, “Balada para um Triste Amor”, “Bicho Solto”, “Mar Adentro” e “Amor Revolução Silenciosa”. Como ator já encenou peças e filmes: “Um Sanatório para Freud”, “Mil Operários em Construção”, “A Caminho da Ternura” e “Carandiru”. 

Como ator, atuou em novelas brasileiras, como Sangue do meu sangue (SBT) e esteve no elenco de filme, como Carandiru, de Hector Babenco. Como diretor dirigiu grandes nomes do teatro, televisão e cinema brasileiro. Paulo Betti e Sérgio Mamberti (A caminho da ternura), Tadeu Di Pietro (Mil operários em construção), Luciana Paes (Um sanatório para Freud).

Ministrou palestras, oficinas, lançou livros e participou de shows em diversos países do mundo: Estados Unidos, França, Itália, Inglaterra, Alemanha e Portugal.

Foi Secretário de Cultura, Turismo e Relações Internacionais, do município de Camaçari, na Bahia.


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Edição: Josy Gomes Murta


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