Rodrigues Lima: imerso em um universo de tintas, palavras e sons

Estava no horizonte de Serra Velha, na genética de uma professora espirituosa, nas rimas dos cantadores e emboladores de coco. Uma semente plantada que o tempo fez germinar. Dela nasceu um artista plástico, músico e declamador. Rodrigues Lima herdou da mãe Irene, do pai Adélio e dos tios talentos especiais para reverenciar a cultura popular, seja nas telas ou nos palcos.

O paraibano de Itatuba, na Paraíba, ainda na infância dava os seus primeiros passos na arte. Hoje, José Iremar Rodrigues Gomes, mais conhecido como Rodrigues Lima, é considerado um dos maiores paisagistas do estado, com diversas exposições realizadas e trabalhos reconhecidos.

Um só artista imerso em um universo de tintas, palavras e sons. “O gosto pela música, naturalmente também passa por esse ‘caminho’ de reviver o passado, cantar a mesma paisagem que pinto, falar de amores que são difíceis de serem esquecidos e assim, dentro dessa efervescência vou sendo feliz através da minha arte”, contou.

O Conexão Boas Notícias conversou com Rodrigues Lima sobre as suas várias facetas artísticas, a cultura nordestina, a preservação do patrimônio histórico e as influências dos seus “causos” e cantos.

A paisagem na tela é uma representação. Como consegue transpor a imagem de um lugar deixando dele um traço singular seu?

A paisagem pintada por mim na atualidade é simplesmente o somatório das memórias de uma criança do passado que viveu, brincou, contemplou, plantou inúmeros cajueiros na companhia do meu saudoso pai, senhor Adélio Gomes a quem homenageio em minhas pinturas com as fruteiras em que plantamos juntos em Serra Velha, naquele terreno fértil. E por essa razão, hoje sou capaz de pintar essa paisagem, “imprimindo” as cores, impregnando o cheiro, sentindo o sabor de cada fruta, ouvindo o suave som dos ventos que cruzavam as coloridas folhas dos manguezais, lembrando o perfume das flores que enfeitavam a beira dos sinuosos caminhos aí existentes.

A paisagem retratada na tela do artista. Foto: Reprodução/Facebook

Em minhas cores, pinto o cântico dos pássaros, as asas das coloridas borboletas, a força das águas que caiam sob trovoadas ecoando nas grandes rochas da “pedra do convento”. Por essa razão, minha pintura exerce tanta força, onde jamais alguém pintará igual, não pela qualidade técnica, mas pelas emoções por mim vividas naquele lugar inspirador e transmitidas em forma de cores para as minhas telas. 

O artista Paul Cézanne pintou o Monte de Santa Victória por incontáveis vezes, porém quem nasceu no alto da Serra Velha fui eu, Rodrigues Lima. Cézanne não teve o mesmo privilégio que eu tive. E é por essa razão que assim como na pintura do Cézanne existe suas características e verdades em suas cores, também em minha pintura é possível enxergar os traços singulares que caracterizam as minhas verdades e emoções.

O Lyceu Paraibano e seus arredores, em João Pessoa, pintados por Rodrigues Lima. Foto: Reprodução/Facebook

O seu trabalho também é voltado para a preservação do patrimônio histórico das cidades, principalmente de João Pessoa. De que forma a arte pode conscientizar as pessoas e o próprio poder público?

A minha íntima relação com o passado, em especial à minha infância, abarca por adoção o Centro Histórico da nossa Philipéia, atual cidade de João Pessoa, capital paraibana. Cidade que me acolheu me dando régua e compasso para explorar os talentos que Deus me deu.

Para essa minha preocupação com a preservação do que restou de um passado tão recente, no que se refere ao Patrimônio Histórico da cidade de João Pessoa eu me acosto ao filósofo e grande desenhista americano Einer que afirma em sua sabedoria “que a ignorância acerca do passado não é uma virtude, mas serve de fundamental importância para compreendermos o presente e planejar o futuro”. Não temos o “direito” de, por omissão, deixar acabar o que resta de memória e História do ponto de vista arquitetônico no Centro da Capital Paraibana.

Por essa razão, me utilizo da minha poética artística para convidar a população a um diálogo visual sobre esse descaso que acontece com a terceira cidade mais antiga do Brasil que a cada dia vai perdendo essas características estéticas.

Uma arte que preserva a memória. Foto: Reprodução/Facebook

Além desse lado da memória, as suas telas também passeiam pelo surrealismo. O que o levou a lidar com esse estilo?

Em minhas observações sobre a paisagem, procuro fragmentar os diversos planos que compõem os panoramas por mim observados e nessas observações inevitavelmente faço essas conexões com Renê Magritt e Salvador Dalí que são para mim duas grandes referências, pelas quais sou plasticamente, apaixonadamente apaixonado. Por essa razão trago um pouco de ambos para enriquecer aquilo que mais me fascina na minha vida. A minha pintura.

Foto: Reprodução/Facebook

A poética da sua arte também está nas palavras, nos “causos” e nas músicas. Como é esse enveredar pela cultura popular nordestina?

Observando genericamente, percebe-se que há duas vertentes nas expressões artísticas sobre as quais gosto e me realizo fazendo, compondo, atuando, interpretando, como queira. Se partirmos de uma visão mais elitista em que classifica a pintura como uma expressão artística “superior” mais inclinada ao universo acadêmico e, em contrapartida, o mesmo artista aparece com uma produção do campo da Cultura Popular. Compreendo como uma atitude versátil em que consigo me encontrar em ambos os lados.

Na minha música em um pot-pourri de ritmos regionais nordestinos, naturalmente falo das minhas vivências, das minhas origens, das paisagens que pinto com minhas cores vibrantes, dos amores que não esqueci. Já nas declamações de causos e estórias em forma de poesias de cordel, (humor rimado), interpreto alguns poetas como, Chico Pedrosa, Amazan, Jessier Quirino, entre outros que produzem o mesmo gênero.

Uma dose de irreverência e tradição na música nordestina. Foto: Andrea Gisele

O seu trabalho como arte-educador influencia a sua percepção sobre a sua própria arte?

Influencia diretamente. Um bom arte-educador, assim como qualquer outro profissional da docência, precisa estar pesquisando constantemente, se qualificando, enriquecendo e ampliando seus conhecimentos sobre o discorrer da História da Arte propriamente dita em conexão com a História da humanidade, conectado principalmente com o que está sendo produzido na atualidade no contexto artístico.

Portanto, o professor precisa, acima de tudo, ser ou tornar-se um profissional que tenha domínio do conteúdo para o qual está posto e para tanto é necessário o uso da oralidade. Deste modo, independente da sua área de atuação, se você é um profissional que deve aprofundar-se na leitura, dessa forma, certamente será um profissional de muito sucesso.

Nessa minha busca pelo conhecimento, vou ampliando meu repertório imagético e consequentemente fazendo novas descobertas. Quando pesquiso para ensinar, automaticamente há um reflexo positivo também no que produzo artisticamente.

Obras artísticas de Rodrigues Lima

Representação dos cajueiros. Foto: Reprodução/Facebook
Parque Sólon de Lucena, em João Pessoa, retratado por Rodrigues Lima. Foto: Reprodução/Facebook
Obra “Árvore da vida”. Foto: Reprodução/Facebook
Tela “Falésia do Cabo Branco”. Foto: Reprodução/Facebook


Por Marcella Machado, da redação do Conexão Boas Notícias 

4 thoughts on “Rodrigues Lima: imerso em um universo de tintas, palavras e sons

  • 7 de julho de 2017 em 20:38
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    Parabéns meu amigo Rodrigues Lima a beleza da sua obra me surpreende, és um grande artista um belo trabalho sucesso, é uma honra ser sua amiga.
    Um grande abraço.
    Eliane Silva.

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  • 7 de julho de 2017 em 22:51
    Permalink

    Parabéns!!! Já tinha admiração por sua pessoa, por sua conduta e agora, orgulho de te-lo conhecido e convivido com um ser de tão nobre alma e com dom de uma outra galáxia. Sucesso vc merece e que Deus continue lhe abençoando.

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  • 8 de julho de 2017 em 12:25
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    Parabéns Rodrigues pela obra extensa, valorosa e verdadeira que expressa em caráter único a história w a beleza desta terra abençoada. A minha filha Sophia é sua aluna e adora as suas aulas.

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